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Neurodesenvolvimento!

Tema complexo, com várias vertentes teóricas, mas essencial para se entender os distúrbios do neurodesenvolvimento. O desenvolvimento é um processo dinâmico e contínuo no qual mudanças físicas, sociais, emocionais e mentais ocorrem em sequência, em que cada estágio é construído a partir dos estágios anteriores. O desenvolvimento neurológico envolve um complexo caminho de maturação do sistema nervoso central (SNC) e sua rede de conexões. Estas redes neurais modificam-se ao longo da vida e seu contínuo desenvolvimento requer a coordenação de um conjunto extraordinário de eventos. É necessário conhecer o neurodesenvolvimento típico, dentro do padrão de normalidade para a espécie de forma a se identificar os desvios e alterações no desenvolvimento.

 

Considerando o filhote humano, há uma sequência de marcos filogeneticamente determinados, ou seja, são comuns à espécie – todo filhote humano adquire marcha e fala as primeiras palavras por volta dos 12 meses de idade, havendo um prazo de tolerância para esta aquisição, que vai até 18 meses para marcha e em torno de 24 meses para fala, considerando-se entretanto outras habilidades motoras já adquiridas como sentar, engatinhar e executar tarefas através de comando verbal, por exemplo. Estas são as habilidades mais classicamente conhecidas e verificadas, contudo, ao longo do primeiro ano de vida algumas habilidades merecem observação, tais como a orientação social (resposta ao nome com olhar e sorriso social), imitação e atenção compartilhada (conjugar o olhar a um objeto e a quem o aponta e novamente ao objeto), capacidades estas fundamentais para o desenvolvimento da interação e aprendizado.

 

Ao final do segundo ano, nosso filhote já é capaz de correr, agachar, usar uma colher, falar mais de 50 palavras e sentenças de duas palavras. Subsequentemente, se for estimulado de forma adequada e as oportunidades forem apresentadas, nossa criança aos três anos, já é capaz de despir-se e vestir-se parcialmente, conhece três cores, usa plurais, tem um vocabulário que se aproxima de 300 palavras, mostra as partes do corpo e informa seu nome completo e idade. E assim sucessivamente, as habilidades crescem, também crescem as responsabilidades, atribuições e capacidades cognitivas.

 

Este processo de amadurecimento obedece uma sequência e desenvolve-se ao longo dos primeiros vinte anos, inicialmente com as funções vitais, autonômicas e de controle, em seguida pelos processos sensório-motores-cognitivos e perceptuais e mais tardiamente com integração e processos decisórios. O resultado final deste processo é atingir a idade adulta com funcionalidade, com capacidade de pensar e resolver problemas. Na atualidade, possivelmente pelas contingências na criação, educação e pelo meio, observamos estas capacidades pouco desenvolvidas ou adquiridas tardiamente, sobrecarregando muitas famílias com seus filhos adultos ainda dependentes dos pais.

 

Há porém eventos biológicos, hereditários ou não,  ou outros fatores externos que comprometem este processo normal de desenvolvimento. O cérebro da criança é influenciado pela combinação da genética e da experiência. Crianças expostas a riscos provenientes de gestações desfavoráveis e/ou incompletas e de alto risco ou condições socioeconômicas adversas padecem de uma morbidade oculta que determina prejuízos inequívocos no desenvolvimento. Importante também lembrar que estresse (físico, psíquico e/ou emocional) causa dano na arquitetura do cérebro em desenvolvimento, podendo levar a problemas no aprendizado, comportamento, saúde física e mental.

 

Os sinais de alerta que temos de observar na primeira infância, dizem respeito às dificuldades relacionadas sobretudo às habilidades psicomotoras, de comunicação e linguagem, qualidade da interação social e da brincadeira funcional e simbólica. Sintomas que impactam a vida da criança antes dos 3 a 5 anos e suas famílias e que apontam pra prejuízos no neurodesenvolvimento podem ser enumerados nos seguintes campos: (1) desenvolvimento global, (2) linguagem e comunicação, (3) interação social, (4) coordenação motora, (5) atenção, (6) atividade, (7) comportamento, (8) humor e/ou (9) sono. Crianças com dificuldades em um ou mais destes campos devem ser referidas para uma avaliação clínica especializada e com mais de um profissional, de modo a se identificar o quadro de base, a sobreposição de sintomas e orientar a melhor abordagem terapêutica precocemente.

 

Parafraseando Charles Chick Govin “é mais fácil construir um menino do que consertar um homem”.

 

 

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